Liquidação de precatórios no Supremo

Liquidação de precatórios no Supremo

No julgamento da ADI nº 4.357 ficou decidido que nos precatórios, para atualização do crédito, não se poderia usar o índice oficial de remuneração da caderneta de poupança. Isso porque importaria em violação ao "direito fundamental de propriedade (CF, art. 5º, XXII) na medida em que é manifestamente incapaz de preservar o valor real do crédito de que é titular o cidadão".

Da mesma forma, reconheceu-se que o "regime "especial" de pagamento de precatórios para Estados e municípios criado pela EC nº 62, de 2009, ao veicular nova moratória na quitação dos débitos judiciais da Fazenda Pública e ao impor o contingenciamento de recursos para esse fim, viola a cláusula constitucional do Estado de Direito (CF, art. 1º, caput), o princípio da separação de poderes (CF, art. 2º), o postulado da isonomia (CF, art. 5º), a garantia do acesso à justiça e a efetividade da tutela jurisdicional (CF, art. 5º, XXXV), o direito adquirido e à coisa julgada (CF, art. 5º, XXXVI)".

Como no julgamento dessa mencionada ação não foi estabelecido o índice de correção monetária a ser utilizado em substituição ao da caderneta de poupança ou forma como seriam pagos os precatórios a partir de então, criou-se um impasse perante os Tribunais de Justiça dos Estados que, por cautela, suspenderam o pagamento dos precatórios.

A demora na solução da questão, além da insegurança jurídica, causa enorme prejuízo aos cidadãos

O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) informou tal ocorrência nos autos da referida ação direta de inconstitucionalidade. O ministro Luiz Fux determinou que se desse continuidade aos pagamentos dos precatórios "na forma como já vinham realizando até a decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal em 14 de março de 2013, segundo a sistemática vigente na época, respeitando-se a vinculação de receitas para fins de quitação da dívida pública, sob pena de sequestro".

Essa ordem foi seguida pelos Tribunais Regionais Federais (TRFs) e de Justiça. Todavia, em outras ações judiciais, credores dos entes públicos recorreram ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) onde questionaram sobre o índice de correção monetária a ser aplicado aos precatórios. Os apelos foram acolhidos para determinar o uso do IPCA.

A União recorreu ao Supremo, mediante Reclamação. Alegou que decisão dessa espécie usurparia a competência daquela Corte Suprema, à qual caberia a modulação dos efeitos do que ficara decidido na ação direta de inconstitucionalidade (ADI) nº 4.357.

A questão dividiu o STF. O ministro Luiz Fux deferiu liminar para suspender a determinação de correção monetária pelo IPCA. Ele entendeu que pende de julgamento a modulação dos efeitos da decisão proferida na citada ADI.

O ministro Marco Aurélio, por sua vez, indeferiu a Reclamação. Ele entendeu que a determinação de continuidade do pagamento dos precatórios, da forma como vinha ocorrendo, tinha por destinatários os Tribunais de Justiça e Tribunais Regionais Federais, não alcançando o Superior Tribunal de Justiça que não poderia deixar de julgar os recursos sobre a questão, cujas decisões poderiam ser atacadas por recurso próprio.

Todavia, parece que o entendimento mais adequado é no sentido de que, até a modulação do que ficara decidido na ADI 4.357, haverá de ser mantida a forma de pagamento dos precatórios já praticadas, como determinado pelo ministro Luiz Fux.

Modificar o índice de correção monetária dos precatórios antes de modulados os efeitos da decisão do Supremo usurpa a competência deste para definição da questão que está sob análise no julgamento da ADI 4.357. A demora na solução dessa questão, além da insegurança jurídica, causa enorme prejuízo aos cidadãos, pois até que isso ocorra, continuam a receber valores defasados. Pelo que se tem notícia, deverá ser concedida moratória para que os entes públicos liquidem os precatórios pendentes até o ano de 2018.

O problema dos precatórios vem de longa data e, até o momento, todas as modificações ocorridas na sua forma de pagamento, atualização monetária do valor devido e juros incidentes, sempre foram nefastos para os credores particulares, afigurando-se extrema a necessidade de regularização, que pode ocorrer, pelo menos em parte, com a modulação da decisão proferida na citada ação direta de inconstitucionalidade.

O Supremo Tribunal Federal, com certeza, dará solução célere e efetiva a essa matéria, de modo a proceder a entrega da prestação jurisdicional com a maior brevidade, resguardando, da melhor forma possível, o direito dos credores do ente público.

Rubens AntonangeloJunior é especialista em direito civil do Diamantino Advogados Associados

Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações

Outras Notícias

Regra do CNJ sobre execuções fiscais cria mais problema do que resolve.
Nova regra para FIDCs pode reduzir a liquidez dos créditos judiciais.
Exportação de gado vivo será recorde em 2026.
Fique Sempre Por dentro
Cadastre-se na nossa newsletter
powered by Logo